Da discussão da regeneração e da vocação eficaz é natural a transição para a da conversão. A conversão pode ser uma crise agudamente marcante, mas também pode vir na forma de um processo gradual.
1. Os termos Bíblicos Para Conversão
a. Vocábulos do Velho Testamento
a.1 Nacham: serve para expressar um profundo sentimento, ou de tristeza (no niphal) ou de alívio (no piel). No niphal significa arrepender-se, e este arrependimento com freqüência vem acompanhado por uma mudança de plano de ação.
a.2 Shubh: É a palavra mais comum para conversão, significa volver, voltar-se, virar e retornar. É mais proeminente nos profetas, onde se refere ao retorno de Israel ao senhor, depois de ter-se apartado dele. A palavra mostra claramente que aquilo que o Velho Testamento denomina conversão é uma volta para Deus, de quem o pecado separou o homem.
b. Vocábulos do Novo testamento
b.1 Metanoia (forma verbal de metanoeo): é a palavra mais comum no Novo Testamento, e também é o mais fundamental dos termos empregados. A palavra é composta de meta e nous . a tradução comum na Bíblia, “arrependimento”, não faz plena justiça ao original, visto que dá indevida proeminência ao elemento emocional. Trench assinala que no grego clássico a palavra significa:
(a) conhecer depois, pós-conhecimento;
(b) mudar a mente como resultado deste pós-conhecimento;
(c) em conseqüência desta mudança da mente, lamentar o curso seguido;
(d) uma mudança da conduta quanto ao futuro, resultante de todos os fatores anteriores. Contudo podia indicar uma mudança para pior, cem como para melhor.
No Novo Testamento, porém, o sentido é aprofundado, e denota:
(a) primariamente uma mudança do entendimento,
(b) passando a ter uma visão mais sábia do passado,
(c) incluindo o pesar pelo mal praticado
(d) e levando a uma mudança da vida para melhor.
Embora sustentado que a palavra denota primariamente uma mudança da mente, não devemos perder de vista que o seu significado não se limita à consciência intelectual teórica, mas também inclui a esfera moral, a consciência propriamente dita. Tanto a mente como a consciência estão corrompidos (Tt 1:15), e , quando a nous de uma pessoa é mudada, ela não só recebe novo conhecimento, mas também a direção da sua vida consciente, a sua qualidade moral é mudada também. A mudança indicada pela palavra metanoia tem a ver:
(a) com a vida intelectual (II Tm 2:25), para um melhor conhecimento de Deus e de sua vontade.
(b) Com a vida volitiva consciente (At 8:22), para um voltar-se para Deus.
(c) Com a vida emocional, na medida em que esta mudança é acompanhada por uma tristeza segundo Deus (II Co 7:10).
Em todos estes aspectos metanoia inclui uma oposição consciente à condição anterior. Esta oposição constitui um elemento essencial seu. Converter-se não é apenas passar de uma direção consacinete para outra, mas faze-lo com uma aversão claramente percebida oara com a direção anterior. A pessoa convertida toma consciência da sua ignorância e do seu erro, da sua obstinação e da sua loucura. A conversão inclui a fé e o arrependimento.
É triste dizer, mas a igreja foi aos poucos perdendo de vista o sentido original de metanoia, na teologia latina, Lactâncio a traduziu por “resipiscentia”, um voltar a ser sábio, como se a palavra derivasse de meta e anoia, e denotasse um retorno da loucura ou da insensatez. Contudo, a maioria dos escritores latinos preferiu traduzi-la por “poenitentia”, vocábulo que denota a tristeza e o pesar que se seguem quando uma pessoas comete um engano ou um erro de qualquer espécie. A palavra poenitentia passou para a Vulgata como tradução de metanoia e, sob a influência da Vulgata, os tradutores ingleses traduziram a palavra grega por “repentance” (arrependimento), dando assim, ênfase ao elemento emocional e fazendo de metanoia um termo equivalente a metameleia. A Igreja Católica exteriorizou a idéia de arrependimento em seu sacramento da penitência, de modo que o termo metanoeite (Mt 3:2) tornou-se poenitentiam agite – “fazei penitência”, na versão latina.
b.2 Epistrophe (forma verbal de epistrepho): esta palavra é a segunda em importância, em seguida a metanoia. Enquanto que na Septuaginta metanoia é uma das traduções de nacham, as palavras epistrophe e epistrepho servem para traduzir as palavras hebraicas teshubhah e shubh. São usadas constantemente no sentido de retornar ou voltar. No Novo Testamento, o sibstantivo epistrophe é usado uma só vez (At 15:3) ao passo que o verbo ocorre várias vezes. Tem significado um tanto mais amplo que metanoeo, e realmente indica o ato final da conversão. Denota, não apenas uma mudança da nous (mente), mas acentua o fato de que uma nova relação é estabelecida, que a vida ativa é levada a mover-se noutra direção.
b.3 Metameleia (forma verbal, metamelomai): Somente a forma verbal é utilizada nop Novo Testamento, e significa literalmente “vir a afligir-se depois”. É uma das traduções do hebraico nacham na Septuaginta. No Novo Testamento acha-se somente cinco vezes (Mt 21:29; Mt 21:32; Mt 27:3; II Co 7:10; Hb 7:21). Nele o elemento negativo, retrospectivo e emocional está acima de tudo mais, enquanto que metanoeo também inclui um elemento volitivo e denota uma enérgica virada da vontade. Enquanto metanoeo às vezes é usado no imperativo, nunca acontece isso com metamelomai.
Nem sempre a Bíblia fala de conversão no mesmo sentido. Podemos distinguir os seguintes sentidos:
a. Conversões Nacionais: Nos dias de Moisés, de Josué e dos juízes, repetidamente o povo de Israel dava as costas a Jeová, e, depois de experimentar o desparzer de Deus, arrependia-se dos pecados e retornava ao Senhor; houve um conversão no reino de Judá nos dias de Ezequias e outra vez nos dias de Josias. Com a pregação de Jonas, os ninivitas se arrependeram dos seus pecados e foram poupados pelo Senhor (Jn 3:10). Estas conversões eram simplesmente da natureza de reformais morais. Podem ter sido acompanhadas de algumas conversões religiosas reais de indivíduos, mas ficavam muito aquém da verdadeira conversão.
b. Conversões temporárias: A Bíblia se refere também a conversões de indivíduos que não representam nenhuma mudança do coração e, portanto, só tem significação passageira (Mt 13:20,21; I Tm 1:19,20; II Tm 2:17; II Tm 4:10; Hb 6:4-6; I Jo 2:19). Tais conversões temporárias podem, por algum tempo, ter aparência de conversões verdadeiras.
c. Conversão Verdadeira: A verdadeira conversão nasce da tristeza segundo Deus, e redunda numa vida de devoção a Deus (II Co 7:10). É uma mudança que tem suas raízes na obra da regeneração, e que é efetuada na vida consciente do pecador pelo Espírito de Deus; mudança de pensamentos e opiniões, de desejos e volições, que envolve a convicção de que a direção anterior da vida era insensata e errônea, e altera todo o curso da vida. Há dois lados nesta conversão, um ativo e outro passivo; o primeiro sendo o ato de Deus pelo qual Ele muda o curso consciente da vida do homem, e o último, o resultado desta ação como se vê na mudança que o homem faz no curso da sua vida e em seu voltar-se para Deus.
c.1 A Conversão Ativa é o ato de Deus pelo qual Ele faz com que o pecador regenerado, em sua vida consciente, se volte para Ele com arrependimento e fé.
c.2 A Conversão Passiva é o resultante ato consciente do pecador pelo qual ele, pela graça de Deus, volta-se para Deus com arrependimento e fé.
d. Conversão Repetida: A Bíblia fala também de uma conversão repetida, na qual a pessoa convertida, depois de uma queda nos caminhos do pecado, retorna a Deus (Lc 22:32; Ap 2:5,16,21,22; Ap 3:3,19). Deve-se entender, que a conversão, no sentido estritamente sotereológico, nuca se repete. Os que experimentama verdadeira conversão podem cair temporariamente sob os falsos encantos do mal e cair em pecado; até podem, às vezes, perambular longe do lar, mas a nova vida forçosamente se reafirmará e por fim os levará a voltar para Deus com corações penitentes.
3. Características da Conversão
a. A conversão pertence ao atos recriadores de Deus, e não aos seus atos judiciais. Ela não altera a posição, mas, sim, a condição do homem. Na conversão, o homem toma consciência do fato de que ele mercê a condenação, e também é levado ao reconhecimento desse fato. Na conversão, o homem se desperta para a jubilosa segurança de que todos os seus pecados são perdoados com base nos méritos de Jesus Cristo.
b. Como a palavra metanoia claramente indica, a conversão tem lugar, não na vida subconsciente do pecador . sendo um efeito direto da regeneração, naturalmente inclui uma transição nas operações próprias da nova vida, do subconsciente para o consciente. Em vista disso, pode-se dizer que a conversão começa nas profundezas da personalidade. Isto põe em relevo a estrita conexão existente entre a regeneração e a conversão. A conversão que não esteja arraigada na regeneração, não é conversão verdadeira.
c. A conversão assinala o início, não só do despojamento do velho homem, da fuga do pecado, mas também do revestimento do novo homem, da luta pela santidade no viver. Na regeneração, o princípio pecaminoso da velha vida já é substituído pelo princípio santo da nova vida. Mas é somente na conversão que esta transição penetra a vida consciente, levando-a numa nova direção, rumo a Deus. O pecador abandona conscientemente a vida antiga e pecaminosa e se volta para uma vida em comunhão com Deus.
d. Tomando a palavra “conversão” em seu sentido mais específico, ela indica uma mudança instantânea, e não um processo como o da santificação. É uma mudança que se dá uma vez e não se pode repetir, embora, como acima foi exposto, a Bíblia também denomina conversão o retorno do cristão a Deus, depois de haver caído
e. Contrariamente aos que pensam na conversão unicamente como uma crise definida na vida, ela pode ser também um mudança muito gradativa.
f. Muitos psicólogos mostram uma inclinação para reduzir a conversão a um fenômeno geral e natural do período da adolescência, contudo, quando falamos em conversão, temos em mente uma obra sobrenatural de Deus.
4. Elementos na Conversão
A conversão compreende dois elementos, quais sejam, o arrependimento e a fé. O arrependimento relaciona-se diretamente com a santificação, enquanto que a fé está estreitamente, embora não exclusivamente, relacionada com a justificação.
O arrependimento aqui definimos como sendo a mudança produzida na vida consciente do pecador, pela qual ele abandona o pecado. Neste arrependimento distinguimos três elementos:
a. Um Elemento Intelectual: Há uma mudança de conceito, um reconhecimento de que o pecado envolve culpa pessoal, contaminação e desamparo (Rm 3:20; Rm 1:32). Se este não for acompanhado pelos elementos subseqüentes, poderá manifestar-se como temor do castigo, sem ódio ao pecado.
b. Um Elemento Emocional: Há uma mudança de sentimento que se manifesta em tristeza pelo pecado contra um Deus santo e justo (Sl 51:2,10,14). Este elemento do arrependimento é indicado pelo verbo metamelomai. Quando acompanhado pelo elemento subseqüente, é lupe kata theou (tristeza segundo Deus), mas se não for acompanhado por ele, será lupe tou kosmou (tristeza do mundo), que se manifesta em remorso e desespero (II Co 7:9,10; Mt 27:3; Lc 18:23).
c. Um Elemento Volitivo: Que consiste numa mudança de propósito, num abandono interior do pecado e numa disposição para a busca do perdão e da purificação (Sl 51:5,7,10; Jr 25:5). Este elemento inclui os outros dois, e, portanto, é o aspecto mais importante do arrependimento. É indicado na Escritura pela palavra metanoia (At 2:38; Rm 2:4)
5. O Autor as Conversão
a. Deus é o Autor da Conversão: Somente Deus pode ser considerado o Autor da conversão (Jr 31:18; Lm 5:21; At 11:18; II Tm 2:25). Há uma dupla operação de Deus na conversão, uma de natureza moral e a outra hiperfísica. Em geral se pode dizer que Ele produz o arrependimento por meio da lei (Sl 19:7; Rm 3:20) e a fé por meio do Evangelho (Rm 10:17). Contudo, não podemos separar estes dois elementos pois a Lei também contém uma representação do Evangffelho, e o Evangelho confirma a Lei e nos ameaça com os seus terrores (II Co 5:11). Mas Deus também age de maneira imediata e hiperfísica na conversão. O novo princípio da vida implantado no homem regenerado não redunda em ação conscinete por seu próprio poder inerente, mas unicamente pela influência iluminadora e frutificativa do espírito Santo (Jo 6:44; Fp 2:13)
b. O Homem Coopera na Conversão: O dr. Kuyper chama a atenção para o fato de que n Velho Testamento shubh é empregado 74 vezes com referência à conversão como ação do homem, e somente 15 vezes como ato gracioso de Deus; e que o Novo Testamento descreve a conversão como um feito do homem 26 vezes e fala dela só 2 ou 3 vezes como ato de Deus. Todavia devemos ter em mente que esta atividade do homem é sempre resultante de uma prévia obra de Deus realizada no homem (Lm 5:21; Fp 2:13) que o homem é ativo na conversão é mais que evidente em passagens como Is 55:7; Jr 18:11; Ex 18:23,32; Ez 33:11; At 2:38.
Há passagens da Escritura que contém um chamamento para a conversão, para o gozo das bênçãos de Deus (Jo 3:3; Ez 33:11; Is 55:7), e estas implicam a necessidade da conversão. A passagem que mais perto chega de uma declaração absoluta acha-se em Mt 18:3. Os que morrem na infância têm que ser regenerados para serem salvos, mas não podem experimentar devidamente a conversão, um consciente voltar-se do pecado para Deus. No caso dos adultos, porém, a conversão é absolutamente essencial, mas não necessita aparecer de cada um como uma crise fortemente assinalada.
a. Com a Regeneração: regeneração e conversão se referem a matérias diferentes, se bem que estreitamente interrelacionadas. O princípio da nova vida implantado na regeneração vem a expressar-se na vida consciente do pecador quando este se converte. A mudança efetuada na vida subconsciente, quando da regeneração, passa para a vida consciente, na conversão. Nos casos dos que são regenerados na infância, há necessariamente uma separação temporal das duas, mas no caso dos que são regenerados depois de atingirem os anos da descrição, geralmente as duas coincidem. Na regeneração o pecador é inteiramente passivo, mas a conversão ele é passivo e ativo. Aquela nunca pode repetir-se, mas esta o pode, até certo ponto, embora a conversão primeira ocorra somente uma vez.
b. Com a Vocação Eficaz: A conversão é resultado direto da vocação interna. É exatamente na vocação interna que o homem se torna cônscio do fato de que Deus está operando nele a conversão. O homem verdadeiramente convertido perceberá, ao longo de toda a ação, que a sua conversão é obra realizada por Deus.

Nenhum comentário:
Postar um comentário